quinta-feira, 15 de março de 2012

Rachel Corrie Tribute


Amanhã, dia 15 de Março, completará nove anos da morte de Rachel Corrie. Ela morreu em Gaza, atropelada brutalmente por um trator das forças armadas israelenses (IDF), tentando proteger a casa de um médico palestino marcada para demolição. Ela não é a única voluntária internacional a ser morta devido ao conflito entre israelenses e palestinos, outros nomes são Vittorio Arrigoni (2011), Juliano Khamis (2011), Takawa Hemoura (2001). Os palestinos chamam aqueles mortos por soldados israelenses de mártires. Reproduzo abaixo, depois do vídeo em memória de Rachel, uma foto que tirei em Deheisha de um monumento aos voluntários internacionais assassinados.





terça-feira, 24 de janeiro de 2012

As crianças palestinas: sozinhas e fragilizadas na prisão Al Jalame de Israel

* Tradução da reportagem especial de Harriet Sherwood, em inglês no original entitulado The Palestinian children – alone and bewildered – in Israel's Al Jalame jail, publicado no Domingo, 22 de Janeiro de 2012 na edição online do The Guardian. Todos os direitos reservados à autora e ao jornal.

As crianças palestinas: sozinhas e fragilizadas na prisão Al Jalame de Israel

Matéria especial: O sistema judiciário militar de Israel é acusado de maltratar crianças palestinas presas por jogar pedras

O quarto é só um pouco mais largo do que o colchão fino e sujo que cobre o chão. Atrás de uma parede de concreto baixa está uma privada de se agaxar, da qual o fedor não consegue se dissipar, já que não há janelas na sala. As paredes ásperas de concreto desencorajam apoiar-se, a iluminação constante inibe o sono. A entrega de comida através de uma abertura embaixo da porta é a única maneira de marcar o tempo, de dividir dia e noite.

Esta é a Cela 36, localizada no interior da prisão de Al Jalame, no norte de Israel. É uma das várias celas onde crianças palestinas são trancadas em confinamento solitário por dias ou mesmo semanas. Um jovem de 16 anos afirma que foi mantido na Cela 36 por 65 dias.

A única fuga é a sala de interrogatório, onde as crianças são atadas por pés e mãos à cadeira, enquanto são interrogadas, às vezes por horas.

A maior parte deles é acusada de jogar pedras em soldados ou colonos; alguns, de lançar coquetéis molotov; outros poucos, de infrações mais graves como conexões com organizações militantes ou uso de armas. Eles também são pressionados a ceder informações sobre as atividades e simpatias de seus colegas de classe, parentes e vizinhos.

No começo, a maior parte deles nega as acusações. A maioria diz que são ameaçados, alguns relatam o uso de violência física. Abuso verbal é comum: “Você é um cão, sua mãe é uma puta”. Muitos ficam exaustos pela privação de sono. Dia após dia eles são acorrentados à cadeira e depois mandados de volta para a solitária. No fim, muitos assinam confissões que, posteriormente, eles afirmam terem sido obtidas à força.

Estas afirmações e descrições vêm de depoimentos dados por menores à uma organização de direitos humanos e de entrevistas conduzidas pelo The Guardian. Outras celas nas prisões de Al Jalame e Petah Tivka também são usadas como solitária, mas a cela 36 é a mais frequentemente citada nestes testemunhos.

Entre 500 e 700 crianças palestinas são presas por soldados israelenses todo ano, a maior parte delas acusada de jogar pedras. Desde 2008, a ONG Defence for Children International (DCI) coletou testemunhos prestados por 426 menores detidos no sistema jurídico militar de Israel.

Suas afirmações mostram um padrão de prisões feitas durante a noite, com mãos atadas por amarras de plásticos, vendas, abuso físico/ verbal e ameaças. Aproximadamente 9% de todos aqueles que deram depoimento dizem que foram mantidos em confinamento solitário, embora tenha havido um aumento de 22% os últimos seis meses.

Poucos pais e mães são avisados da localização de seus filhos. Menores raramente são interrogados na presença dos pais e raramente veem um advogado antes ou durante o primeiro interrogatório. Muitos são detidos dentro de Israel, o que torna as visitas familiares muito difícil.

Organizações de direitos humanos dizem que estes padrões de tratamento - que são corroborados por um estudo separado, No Minor Matter, conduzido pelo grupo israelense B’Tselem - violam a convenção internacional sobre os direitos das crianças, que Israel ratificou, e a quarta convenção de Genebra.

Muitas crianças mantém que são inocentes dos crimes de que são acusadas, apesar das confissões de culpa, diz Gerard Horton do DCI. Mas, ele acrescenta, culpa ou inocência não são questões relevantes em relação ao tratamento que sofrem.

Nós não estamos dizendo que infrações não são cometidas. Estamos dizendo que crianças têm direitos legais. Independentemente do que elas são acusadas, elas não devem ser presas no meio da noite em operações aterrorizantes, elas não devem ser amarradas e vendadas dolorosamente às vezes por horas a fio, elas devem ser informadas sobre seu direito ao silêncio e elas devem ter o direito de ter um dos pais presente durante o interrogatório”.

Mohammad Shabrawi da cidade de Tulkarm, na Cisjordânia, foi preso, com 16 anos, no último Janeiro, aproximadamente às 2h30 da manhã. “Quatro soldados entraram no meu quarto e disseram: você tem que vir conosco. Eles não disseram por que, não disseram nada, nem para mim, nem para os meus pais”, ele disse ao The Guardian.

Algemado com uma amarra de plástico e vendado, ele acha que primeiro foi levado a um assentamento, onde ele teve de se ajoelhar - ainda algemado e vendado - por uma hora em uma estada de asfalto durante o frio gelado da noite. Uma segunda jornada terminou aproximadamente às 8 da manhã no centro de detenção de Al Jalame, também conhecido como prisão Kishon, entre os campos próximos à estrada que vai de Nazaré à Haifa.

Depois de uma checagem médica de rotina, Shabrawi foi levado à Cela 36. Lá, ele passou 17 dias na solitária, além dos interrogatórios, e em uma cela parecida, a número 37, ele disse. “Eu estava sozinho, assustado todo o tempo e precisava de alguém para conversar. Eu estava em choque por estar sozinho. Eu estava desesperado para encontrar qualquer um, falar com qualquer um... Eu estava tão chateado que quando eu estava fora [da cela] e via a polícia, eles estavam falando em hebraico e eu não falo hebraico, mas mesmo assim eu estava balançando a cabeça como se eu entendesse. Eu estava desesperado para falar”.

Durante o interrogatório, ele estava amarrado. “Eles me xingaram e ameaçaram prender minha família se eu não confessasse”, ele disse. Ele viu um advogado pela primeira vez 20 dias depois de sua prisão, ele disse, e foi condenado depois de 25 dias. “Eles me acusaram de muitas coisas”, ele disse, acrescentando que nenhuma delas era verdadeira.

Em algum momento, Shabrawi confessou ter sido membro de uma organização proibida e foi sentenciado à 45 dias. Desde sua libertação, ele diz, ele estava “com medo do exército, com medo de ser preso”. Ele disse ter se tornado mais recluso.

Ezz ad-Deen Ali Qadi de Ramallah, que tinha 17 anos quando foi preso em Janeiro passado, descreveu um tratamento similar durante sua prisão e detenção. Ele diz que foi mantido na solitária em Al Jalame por 17 dias nas Celas 36, 37 e 38.

Eu começava a repetir as perguntas dos interrogadores para mim mesmo, me perguntando se era verdade a acusação deles”, ele disse ao The Guardian. “Você sente a pressão da cela. Aí você pensa sobre sua família e você sente que vai perder seu futuro. Você fica sobre uma pressão gigantesca”.

Seu tratamento durante o interrogatório dependia do humor dos seus interrogadores, ele diz. “Se ele está de bom humor, às vezes ele permite que você sente na cadeira sem as algemas. Ou ele pode te forçar a sentar em uma cadeira pequena com um aro de ferro atrás. Daí ele amarra suas mãos no aro e suas pernas nas pernas da cadeiras. Às vezes você fica desse jeito por quatro horas. É doloroso.

Às vezes eles tiram sarro de você. Eles perguntam se você quer água e se você diz que sim eles trazem, mas daí o interrogador é que bebe”.

Ali Qadi não viu seus pais durante os 51 dias em que esteve preso antes do julgamento, ele afirma, e só teve permissão de ver um advogado depois de 10 dias. Ele foi acusado de jogar pedras e de planejar ações militares, depois de condenado, ele foi sentenciado a seis meses de prisão. O The Guardian tem depoimentos de mais cinco jovens que disseram terem sido presos na solitária em Al Jalame e em Petah Tivka. Todos confessaram depois de interrogatório.

A solitária destrói o ânimo de uma criança”, disse Horton. “Crianças dizem que depois de uma semana com esse tratamento, ele confessam simplesmente qualquer coisa para poderem sair da cela”.

A Agência de Segurança Israelense (ISA) - também conhecida como Shin Bet - contou ao The Guardian: “Ninguém que é interrogado, incluindo menores, é mantido em uma cela como medida punitiva ou com o objetivo de obter uma confissão”.

O serviço penitenciário israelense não respondeu à questão específica sobre a solitária, dizendo apenas que “a encarceração de prisioneiros... é submetida a examinação legal”.

Jovens detentos também alegam pesados métodos de interrogação. O The Guardian entrevistou o pai de um menor que cumpre uma pena de 23 meses por jogar pedras em veículos. Ali Odwa, de Azzun, disse que seu filho Yashir, que tinha 14 anos quando foi preso, levou choques elétricos de taser enquanto estava sendo interrogado.

Eu visitei meu filho na prisão. Eu vi marcas de choques elétricos nos seus braços, eles estavam visíveis através do vidro. Eu perguntei a ele se eram de choques elétricos, ele apenas balançou a cabeça. Ele estava com medo de que alguém estivesse ouvindo”, Odwan disse.

O DCI tem depoimentos de três menores acusados de jogar pedras que afirmam terem sido eletrocutados sob interrogatório em 2010.

Outro jovem de Azzun, Sameer Saher, tinha 13 anos quando foi preso às 2 da madrugada. “Um soldado me segurou de cabeça para baixo, me levou para uma janela e disse: ‘Eu quero jogar você desta janela’. Eles me bateram nas pernas, estômago, rosto”, ele disse.

Seus interrogadores o acusaram de atirar pedras e exigiram o nome de seus amigos que também jogaram pedras. Ele foi liberado sem acusações aproximadamente 17 horas depois de sua prisão. Agora, ele diz, ele tem dificuldade de dormir por medo “de que eles vão vir de noite e me prender”.

Em resposta às questões sobre maus tratos, incluindo choques elétricos, a ISA disse: “As afirmações de que jovens palestinos foram sujeitos à técnicas de interrogação que incluem espancamento, longos períodos algemados, ameaças, truques, abuso verbal, humilhação, isolamento e impedimento de sono não tem absolutamente nenhuma base... Investigadores agem de acordo com a lei e com determinações inequívocas que proíbem tais ações”.

O The Guardian também viu raras gravações audiovisuais do interrogatório de dois meninos, de 14 e 15 anos, do vilarejo de Nabi Saleh, local onde ocorrem semanalmente protestos contra os colonos dos arredores. Muitos estão visivelmente exaustos depois de serem presos no meio da noite. Seus interrogatórios, que começaram perto das 9:30 da manhã, duraram quatro e cinco horas.

Em nenhum dos casos estavam presentes advogados durante o interrogatório.

A lei militar israelense foi aplicada na Cisjordânia desde que Israel ocupou os territórios, mais de 44 anos atrás. Desde então, mais de 700.000 homens, mulheres e crianças palestinas foram presas sob ordens militares.

De acordo com a lei militar 1651, a idade de responsabilidade criminal é 12 anos, e crianças mais novas do que 14 anos enfrentam um máximo de seis meses de prisão.

No entanto, crianças de 14 e 15 anos poderiam, em teoria, ser sentenciadas a até 20 anos por jogar objetos em um veículo em movimento com a intenção de ferir. Na prática, a maior parte das sentenças vão de duas semanas a 10 meses, de acordo com o DCI.

Em Setembro de 2009, uma corte militar especial para jovens foi criada. Ela se reúne em Ofer, uma prisão militar fora de Jerusalém, duas vezes por semana. Menores são trazidos à corte com as pernas amarradas, algemas e vestindo uniformes marrons de prisioneiro. Os procedimentos são em hebraico com a tradução intermitente de soldados que falam árabe.

O serviço penitenciário israelense disse ao The Guardian que o uso de amarras em locais públicos era permitido nos casos em que “há uma preocupação razoável de que o prisioneiro possa escapar, causar dano à propriedade ou a pessoas, ou causará dano à evidência ou tentará destruir evidências”.

O The Guardian testemunhou um caso neste mês no qual dois garotos, um de 15 e outro de 17 anos, admitiram terem entrado ilegalmente em Israel, terem lançado coquetéis molotov e pedras, terem iniciado um incêndio que causou dano extensivo e terem vandalizado propriedade. A acusação pediu por uma sentença que refletisse as “razões nacionalistas” e que agisse como um bloqueador.

O garoto mais velho foi sentenciado a 33 meses de prisão, o mais novo a 26 meses. Ambos foram sentenciados a um adicional de 24 meses e foram multados em 10.000 shekels (R$4.600). Se o pagamento não for efetuado, haverá um adicional de 10 meses de prisão.

Muitas delegações parlamentares britânicas testemunharam audições infantis em Ofer nos últimos anos. Alf Dubs relatou à Casa dos Lordes, em Maio passado, dizendo: “Nós vimos um menino de 14 anos e um de 15 anos, um deles estava chorando, os dois pareciam absolutamente fragilizados... Eu não acredito que este processo humilhante represente justiça. Eu acredito que a maneira com que estas jovens pessoas são tratadas é já um obstáculo para que Israel alcance um relacionamento pacífico com o povo palestino”.

Lisa Nandy, membro do parlamento britânico por Wigan, testemunhou o julgamento de um jovem atado de 14 anos em Ofer no mês passado e achou aflitiva a experiência. “Em cinco minutos ele foi julgado culpado de jogar pedras e foi sentenciado a nove meses. Foi chocante ver uma criança passar por este processo. É difícil ver como uma solução [política] pode ser alcançada quando jovens estão sendo tratadas desta maneira. Eles terminam com pouquíssima esperança no seu futuro e com muito ódio por seu tratamento”.

Horton disse que uma confissão de culpa era “a maneira mais rápida de sair do sistema”. Se a criança disser que sua confissão foi forçada, “isso lhes permite uma defesa legal, mas a fiança é negada, eles irão permanecer em detenção mais tempo do que se eles tivessem simplesmente confessado”.

Uma opinião de especialista, escrita por Graciela Carmon, psiquiatra infantil e membro do Physicians for Human Rights, em maio de 2011, disse que crianças são particularmente vulneráveis a fornecer falsas confissões sob coerção.

Embora alguns dos detentos entendam que fornecer uma confissão, apesar de sua inocência, terá repercussões negativas no futuro, eles confessam mesmo assim, já que a angústia física e/ou psicológica imediata que eles sentem se mostra mais forte do que as implicações futuras, sejam elas quais forem”.

Quase todos os casos documentados pelo DCI terminaram em confissão de culpa e aproximadamente três quartos dos menores culpados foram transferidos para prisões dentro de Israel. Isto infringe o artigo 76 da quarta convenção de Genebra, que determina que crianças e adultos dos territórios ocupados sejam detidos dentro do território.

As Forças Armadas de Israel (IDF), responsáveis pelas prisões na Cisjordânia e pelo sistema penal militar, disseram mês passado que o sistema penal militar era “embasado em um cometimento com a asseguração dos direitos do acusado, imparcialidade judicial e uma ênfase na prática das normas legais internacionais em situações incrivelmente complexas e perigosas”.

A ISA disse que seus empregados agiram de acordo com a lei e que os presos tiveram todos os direitos que lhes são cabíveis, incluindo o direito a aconselhamento legal e visitas da Cruz Vermelha. “A ISA nega categoricamente todas as afirmações em relação ao interrogatório de menores. Na verdade, a verdade é o completo oposto - as especificações da ISA garantem proteções especiais a menores, necessárias devido a sua idade”.

Mark Regev, porta-voz do primeiro ministro israelense, Binyamin Netanyahu, disse ao Guardian: “Se detentos acreditam que estão sendo maltratados, especialmente em caso de menores... é muito importante que estas pessoas, ou pessoas os representando, venham e tragam estas questões a público. O teste de uma democracia é a maneira como você trata as pessoas encarceradas, pessoas na cadeia e, especialmente, crianças nesta situação”.

Jogar pedras, ele acrescenta, era uma atividade perigosa que resultou nas morte de um pai e de um filho israelenses no ano passado.

Jogar pedras, lançar coquetéis molotov e outras formas de violência são inaceitáveis e as autoridades de segurança têm de terminar com estas ações quando elas acontecem”.

Grupos defensores dos direitos humanos estão preocupados com o impacto a longo prazo da detenção de palestinos menores de idade. Algumas crianças inicialmente mostram um pouco de orgulho, acreditado que aquilo foi um rito de passagem, disse Horton. “Mas quando você senta com eles por uma hora ou mais, sob este verniz de orgulho está uma criança consideravelmente traumatizada”. Muitos deles, ele diz, nunca mais querem ver um soldado ou chegar perto de um posto de verificação. Ele acha que o sistema funciona como um bloqueador? “Sim, acho que ele funciona”.

De acordo com Nader Abu Amsha, o diretor do YMCA em Beit Sahour, próximo à Belém, que mantém um programa de reabilitação para jovens, “as famílias pensam que quando a criança é liberta, este é o fim do problema. Nós dizemos a eles que este é o começo do problema”.

Após a detenção, muitas crianças exibem sintomas de trauma: pesadelos, desconfiança dos outros, medo do futuro, sentimentos de desesperança e desvalorização, comportamento obsessivo-compulsivo, incontinência urinária, agressão, reclusão e falta de motivação.

As autoridades israelenses deveriam considerar os efeitos a longo prazo, diz Abu Amsha. “Eles não dão atenção à maneira com que isto pode fazer continuar o ciclo de violência, com que isso pode aumentar o ódio. Estas crianças saem do processo com muita raiva. Alguns deles sentem a necessidade de vingança.

Você vê crianças que estão totalmente destruídas. É doloroso ver a dor destas crianças, ver o quanto elas estão exauridas pelo sistema israelense”.


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Em seguida a esta reportagem, foi postado no portal do The Guardian, um vídeo cedido pela ONG B'Tselem, com a seguinte entrevista, dada por dois jovens palestinos. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Despedida


 A despedida seria dolorosa o bastante sem o agravante da preocupação. Um mês de intensa convivência diária, choques e trocas culturais, boa intenção de ambas as partes. É dolorosamente que escrevo esta postagem de despedida do Campo e principalmente das crianças. Se por um lado é bonito saber que a vida na Palestina continua (sempre!), por outro há a tristeza de não estar lá para ver como estas crianças vão crescer. Se terão um Estado e os direitos dele advindos, se será um bom Estado, se a paz com os vizinhos, todos, será finalmente alcançada. Os jornais de todo o mundo que fazem ecoar o termo “Statehood” (o tornar-se um estado da Palestina) entre as mais variadas análises políticas e diplomáticas, deixam escapar o sussurro – cada vez mais alto e real – que vem das ruas da Cisjordânia (e provavelmente de Gaza), dentre os velhos de  manto e lenço, à Arafat, das bandeirinhas palestinas que agora cobrem as ruas – numa versão local das fitinhas verde e amarelas da Copa do Mundo no Brasil –, da boca mesma das crianças que, em sua juventude, misturam valores, direitos e heroísmo com tragédia: terceira Intifada. Será pacífica e desafiadora como a primeira? Violenta e trágica como a segunda? Terá consequência na vida de Deheisha ou das crianças do Karama?

Monumento em Deheisha dedicado aos mártires internacionais da causa palestina.

 A partir do próximo dia 20 de Setembro se inicia a 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas. À semelhança de Israel em 1949 (dois anos após sua fundação, portanto), a Autoridade Palestina vem através de seu atual representante, Mahmoud Abbas, pedir – exigir – dos governos do mundo o que é prometido à décadas, mas nunca dito, o que é apoiado por grandes e pequenos países, mas nunca efetivado: que a Palestina torne-se finalmente um estado independente, com as barreiras anteriores a 1967. O resumo do percurso mais provável, embora incerto, é o seguinte: no dia 20, no discurso de abertura da Assembleia, é possível que a presidenta Dilma, representando o Brasil e sua posição diplomática, se refira ao processo palestino de maneira positiva (será, na minha desinformada opinião, quase como uma mea culpa internacional, uma retratação do apoio inconsequente do Brasil, como presidente da Assembleia, em 1947, em que se reconheceu a criação do estado de Israel). Em seguida, se espera que o presidente Abbas discurse no dia 23 quando será formalizado o pedido palestino de tornar-se membro integrante da Organização das Nações Unidas. Este pedido para ser atendido tem de passar primeiro pelo Conselho de Segurança, no qual, se mantiverem-se as posições, deverá ser vetado pelos Estados Unidos. Como a posição americana sobre Israel é cada vez mais isolada no cenário internacional, no entanto, e especialmente sensível no Oriente Médio, devido às duas guerras, e à Primavera Árabe, não seria uma reviravolta inimaginável que o veto seja negociado. O mais provável, no entanto, é que ele ocorra e que os palestinos tornem-se então para a Assembleia Geral, onde jogam em casa com apoio da ampla maioria – excetuando-se Israel, evidentemente, meia duzia de ilhas-estado, como a Micronésia, fantoches americanos, e possivelmente dois ou três países alinhados como Canadá e Austrália. O que será pedido, e muito provavelmente aceito nesta Assembleia, que deverá marcar o ponto alto de vexame internacional recente para alguns países – a saber, os que votarem contra ou mesmo se absterem como é possivelmente o caso do Reino Unido -, é o reconhecimento da Palestina como estado não-membro da ONU. Passariam então de “membro não-estado”, como é mais ou menos sua situação atual, para “estado não-membro”, do qual o Vaticano é exemplo. A vitória, ainda sim, seria Palestina, primeiro pela demonstração maciça de apoio internacional à causa. Segundo porque tornando-se Estado, abrem-se para a Palestina diversas estâncias da própria ONU – como a Corte Penal Internacional – até agora fechadas


Este percurso diplomático, em sua claridade e abertura internacional, contrasta com a obscuridade das preparações mais práticas e, infelizmente, mais efetiva nas vidas, que tomam curso na Palestina e em Israel. Na visita à Ramalah, que comecei a descrever em postagem anterior, relatei as principais informações que recebemos de um funcionário da Autoridade Palestina a respeito da economia palestina dependente, devido à ocupação, da israelense e do boicote como ferramenta de emancipação. Ao fim da seção perguntei sobre as consequências do reconhecimento do Estado na economia. Me surpreendi com a resposta do funcionário do “governo”: não se sabia. A maneira com que formulou a resposta é exemplar do sentimento que toma forma aos poucos dos dois lados do muro: independentemente do que aconteça na reunião da ONU, grandes coisas – e até agora imprevisíveis – vão acontecer.


O sentimento generalizado de revolta que precede a Intifada está nas ruas há tempos. (Sua fonte é o cotidiano que relembra constante e sadicamente, grilhão na ferida, o bloqueio da vida, a ofensa rotineira da dignidade nos Check-Points e no controle da água e da comida, os cemitérios que engolem vidas jovens e a própria morte que se torna impossível, em sua desritualização). Houve quem a chamasse no primeiro semestre deste ano pela internet. Protestos pacíficos têm acontecido nos últimos meses – como o exemplar Olive Revolution – e a capacidade de mobilização mostra-se cada vez maior. Com ela, como é costumeiro no conflito, cresce também a resposta seca, brutal e violenta de Israel. Como vazado em um dos informesdo Wikileaks, o exército de Israel afirma não estar preparado para lidar com Gandhis. A resposta às demonstrações pacíficas é a milícia típica do fascismo – me desculpo com os ouvidos mais sensíveis, mas não há outro termo. É conhecido da mídia internacional que Israel, nos últimos meses, tem treinado militarmente Settlers e lhes fornecido armas, balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Há quem defenda balas de verdade, como citei na postagem anterior. Quem vive aqui sabe que não há necessidade, os Settlers têm há tempos armas e munição letal. A milícia, fundada, no duplo sentido, pelo estado israelense, chegou ao ponto de se internacionalizar. O grupo terrorista francês JDL, como os denomina Israel e os EUA, chegará a Israel com homens e mulheres de formação militar para fazer a proteção dos Settlements durante as esperadas manifestações palestinas. De acordo com a instrução da IDF – forças armadas israelenses -, serão pintadas linhas no chão que dão aos poucos direitos aos Settlers: cruzar a primeira linha dá direito à balas de borracha, a segunda, bombas de gás lacrimogênio. Quantos cruzarão a terceira linha? O leitor notará que nem entro aqui no mérito da violência indiscriminada – como os corpos das crianças de Gaza, durante a operação Cast Lead, não nos deixam esquecer – do exército. Deste se espera uma versão ainda mais brutalizada de seu comportamento habitual. Que a repressão chegue ao ponto de milícias civis é sinal por si só do monte de pólvora que aguarda a fagulha da Assembleia da ONU.

 
Ainda em Ramallah, percebemos uma postura semelhante de todas as autoridades com que conversamos, gente ligada ao Hamas, gente do governo e do Fatah, gente da juventude mobilizada e das comissões de negociação internacional. Já que todas as vias de negociação, como reconhecem os próprios americanos, foram deliberadamente fechadas por Israel – com sua negação em congelar a construção de Settlements em território palestino e sua exigência absurda de ser reconhecido por cidadãos muçulmanos e cristãos autóctones como estado judeu -, o que coube aos palestinos, menos como ação de audácia do que como último recurso, foi recorrer ao foro internacional. É também para o governo uma maneira de exigir do mundo os compromissos afirmados décadas e décadas a fio, em troca da realização de tratados e exigências. Pois os palestinos se pacificaram, construíram instituições, tornaram-se interlocutores respeitados internacionalmente e agora exigem o que lhes foi prometido. Evidentemente que o pedido é embaraçador. Apesar da nuvem de sangue que já ensombrece às ruas palestinas, a ocupação, como disse há pouco um alto-funcionário israelense, não vai acabar por causa de um pedaço de papel. A situação internacional e diplomática, no entanto,  vai. Os atos de agressão e violência, do ponto de vista jurídico, não serão mais de um estado contra uma “minoria” oprimida, mas um ataque bélico, de um país – juridicamente fictício, que seja – contra outro país. Cada violação será uma violação internacional. Cada crime um crime de guerra. Os cartões de refugiados, num futuro próximo, quem sabe, transformar-se-ão em passaportes e registros civis. A habilidade mesma de negociar a paz e a desocupação com Israel se dará não mais entre o ocupante e o refugiado, mas entre dois estados.

Tumulo de Yasser Arafat que devera, num futuro talvez proximo, ser transportado para Jerusalem, como desejo postumo.

O pedido na ONU não é  unanimidade entre os palestinos. Entre os cidadãos comuns o que se nota é um compreensível ceticismo em relação a ações internacionais e suas consequências. É o corpo do Tratado de Oslo, como esperança abortada, que ainda cheira. Entre alguns acadêmicos, palestinos refugiados e membros do Hamas, a Autoridade Palestina coloca-se em uma posição delicada com o pedido. Pois sendo reconhecida como representante do estado palestino, deixaria de representar os palestinos no exterior. Sua legitimidade também balançaria, pois tendo sido eleita como representante internacional, se tornaria governo de um estado. O argumento que me parece principal, no entanto, é o de que o reconhecimento é a oficialização da solução dos dois estados e, por consequência, o bloqueio da solução de um estado. Me lembro, alguns meses antes de vir, de ter lido um artigo de Slavoj Zizek em que se defendia a solução de um estado. (Entenda-se com isso a convivência pacífica e democrática entre israelenses e palestinos em um único estado, com o fim do Apartheid e de direitos desiguais entre cidadãos). Ora, lembro que pensei que a solução parecia bela e justa, mas impossível de realizar-se considerando a linha ideológica predominante na política israelense. Hoje, depois de ter vindo para cá, e de ter experienciado a vida em um Campo de Refugiados que tiveram a terra roubada e a situação de vida de três gerações danificadas, tenho o sentimento de que a solução de dois estados não é apenas paliativa, mas também injusta. O direito de retorno é quase a essência do Campo e mesmo da identidade de jovens e velhos que moram aqui. A solução de dois estados me parece eliminar na prática – considerando a continuidade das linhas principais ideológicas em Israel – este direito. 

Minarete do Campo de Refugiados de Aida
 Mesmo tomando isto em consideração, os argumentos a favor da ida à ONU me parecem, no entanto, mais fortes. Primeiro porque é necessário o mais rápido possível acabar a situação de tragédia diária que é a vida palestina. Um estado palestino, com menos de um quinto de suas terras originais, com recursos roubados que não serão restituídos, com o sangue de mártires e mártires em sua história, é ainda sim uma solução a esta tragédia. É uma possibilidade de recomeço, melhor do que a vida sob o conflito, indefinidamente, vida quem sabe da geração filha destas crianças que eu conheci aqui. Segundo porque, como bem disseram as autoridades que visitamos, não há outra alternativa racional de ação – e o tempo, com a construção galopante dos Settlements, é sempre aliado de Israel. Mas há sim uma outra alternativa, embora não racional: é aquela da violência desesperada. É a negação a esta alternativa maldita – que esta geração de autoridades baniu de suas ações – que darão os países apoiadores da iniciativa palestina na próxima Assembleia da ONU. O voto negativo, ou de abstenção, será a afirmação indubitável de que se está com Israel acima de tudo e a infame insinuação e instigação muda daquela violência então abandonada. Como diz a sábia frase de Nelson Mandela, que aprendia lendo no Muro da Vergonha: só homens livres podem negociar. É o direito de negociar que pedem os palestinos. É a este direito que qualquer país ou cidadão auto-denominado civilizado tem a obrigação de atender – sob a pena de guardar em si a culpa do desespero futuro.
Esta provavelmente não será a última postagem do blog, mesmo que eu deixe bela terra em alguns dias. O espaço agregou interesse e discussão e não há, portanto, motivo para desmanchá-lo. Tentarei trazer informações dos que ficaram em sua terra e as compartilharei aqui na medida do possível. Volto de peito e olhos cheios de boas lembranças e de preocupação, e com estes óculos que me lançam às vistas, ao invés de nomes de cidades e vilas do papel cinza do jornal, rostos e nomes de crianças, ruas e comidas. O interesse na Palestina, antes político e intelectual, metamorfoseou-se belamente na borboleta do cuidado com os que nos são queridos. Ontem tivemos uma discussão em grupo sobre o que desejamos do futuro. A maior parte das crianças quer casar, ter filhos (um deles disse dez!) e morar na Palestina. Acham a melhor coisa daqui o falafel, as pessoas (e algum malandro disse:... os beijinhos!). Acham o lixo nas ruas e controle de água a pior coisa e se pudessem mudar alguma coisa construiriam casas em Gaza e distribuiriam brinquedos para todas as crianças da Palestina. Acham, sem saber como, que a ocupação um dia vai acabar e que a Palestina vai ser então um lugar feliz. (Mais feliz ainda, pensei eu). É no interesse então destes meus amigos queridos que convido o leitor a participar de alguma demostração, a mandar um e-mail ou dar um telefonema, a acompanhar as notícias, a exigir de si mesmo e do mundo uma situação de vida melhor para estes que eu esforcei-me por retratar não com números ou adjetivos, mas com formas e sentimentos e histórias. São pessoas e, no caso do  leitor brasileiro, por acaso da história e do mundo, pessoas bastante parecidas com a gente. Pessoas que bebem no seio da vida o leite da resistência – pois não há outra alternativa – e que resistindo vivem com a maior beleza possível. A Palestina resiste!


PS: Futuramente o blog poderá ficar bloqueado durante um dia. É quando viajarei de volta e  terei de esconder minha estadia na Palestina para passar sem problemas pelo aeroporto.

domingo, 11 de setembro de 2011

Hebron


Settlements


Antes começar a relatar a curta viagem de apenas algumas horas que fizemos hoje à Hebron, convido o leitor a ler esta reportagem do jornal israelense Haaretz. A ideia do congressista é a de aplicar a lei “Shai Dromi” - uma espécie de lei do velho oeste, já aprovada pelo governo israelense, que permite a qualquer cidadão atirar em pessoas que “invadam” sua propriedade - à manifestações pacificas e demonstrações nas ruas dos Settlements que ativistas palestinos estão planejando após a reunião das Nações Unidas que deverá reconhecer a Palestina como um estado.

Andar pelas ruas de Hebron é uma experiência semelhante a de observar nas beiras das estradas e cidades árabes o surgimento imponente, bárbaro na arquitetura, dos Settlements. Fechados como condomínios e protegidos por tropas e mais de tropas de soldados e torres de vigilância, sua aparência é antes intimidadora do que defensiva. Gigantescos e idênticos eles se espalham progressivamente pelos picos das colinas ocupadas da Cisjordânia. Sua altura e aparência lembra plantações de eucalipto que ocupam o solo de antigas matas tropicais. Do posto alto observam a vida nas estradas e cidades sem, no entanto, participar delas. As únicas curvas na arquitetura são do Muro da Vergonha que para protegê-las aprisiona a vida árabe em guetos. Pois a impressão de, apesar de ocupar um espaço maior, ser ainda sim vigiado e controlado por uma minoria, é a mesma que se tem caminhando pela rua principal do mercado velho de Hebron, da qual os segundo andares foram todos desalojados - legal ou ilegalmente, através de violência, incêndios ou ameaças - por medidas de segurança. A maior parte permanece desocupada, alguns deles, de quarteirão em quarteirão, são ocupadas pelas onipresentes torres de segurança israelenses. Sobre o mercado grades de alumínio tornam a rua numa espécie de gaiola. Sua função, quase inacreditável, é proteger os pedestres e as lojas de lixo jogado propositalmente pelos Settlers que moram sobre o mercado. Esta triste reportagem ilustra bem a situação.



Alguns números sobre a cidade devem dar ao leitor uma impressão da vida sob ocupação. Hebron, a segunda cidade mais populosa da Cisjordânia, contava com uma população de 163.146 em 2007. Destes, apenas 500 são Settlers judeus. O número de soldados, no entanto, para proteger esta pequena parte da população é surpreendente: 4000, quase dez soldados para cada Settler, portanto. Esta presença maciça, que controla a vida de dezenas de milhares de palestinos – misturada com o ódio ideológico que é o ar que se respira na Cisjordânia – facilita a constante ocorrência de abusos. Quando estivemos lá conhecemos uma senhora que fazia parte de uma ONG que tinha como função de, além de serem observadores internacionais, acompanhar crianças palestinas à escola. Elas têm de ser acompanhadas porque podem ser alvo de Settlers ou dos soldados no meio do caminho. 

H1 controlada pela polícia palestina, H2 pelos soldados israelenses


Abaixo posto o trailer do filme "Bem-vindo a Hebron", ele explicita por si só mais do que qualquer lista de eventos que eu possa transcrever aqui. É necessário um adendo, no entanto. Os Settlers, me parece, não são representativos da maioria da população israelense. Este  tipo de comportamento extremo é típico de uma certa camada minoritária, ultra-religiosa de israelenses que se voluntariam para habitar esta região por certas crenças religiosas e políticas. Minoritária, ela não é menos atuante e influente, no entanto. Prova disso é o número de soldados enviados pelo governo para a cidade. Parece um tipo de miniatura da própria política israelense: se por um lado é improvável que a maioria da população apoie a ocupação e o apartheid da maneira desumana com que eles ocorrem, por outro lado, seja por abstenção, auto-imposta ignorância ou abandono da política aos políticos, é essa minoria extrema que acaba por chegar ao governo e a tomar as terríveis decisões que tomam. A responsabilidade, evidentemente, é compartilhada entre todos. Os Settlers de Hebron são os representantes legítimos da atual política israelense e, através dela, da população que a legitima:



Caminhando pela rua principal do mercado, que se esvazia a medida que se aproxima da área israelense, chegamos ao seu fim que dá num check-point. Viramos a esquerda e passamos por um segundo check-point em que fui parado e perguntado "se eu era judeu". Visivelmente sem qualquer treinamento de identificação de passaportes, me deixou passar depois, sem pedir o documento da minha outra colega. Nosso guia árabe teve, evidentemente, de tirar o cinto e responder a algumas perguntas. Caminhamos mais cem passos até a entrada do Túmulo dos Patriarcas, onde passamos por mais um detector de metais e onde fomos interrogados novamente por soldados israelenses. Tentei me colocar na posição dos árabes que vêm algumas vezes ao dia à mesquita e que têm de passar por três check-points em menos de 200 metros para exercer o direito de rezar.


Algo triste de se observar é a divisão que foi feita do templo. Pois sendo local sagrado para as três grandes religiões, ele teve, no passado, cultos diversos ocorrendo no mesmo local. Desde o inicio do século passado, no entanto, como consequência da imigração sionista, os conflitos se iniciaram com massacres horríveis de judeus e muçulmanos. O peso da atmosfera me fez refletir sobre a possibilidade da religião – e principalmente  de religiões tão pacificas e caritativas como o Islã e o Judaísmo – nestas circunstâncias de ódio evidente. Observando a tumba de Abraão – separado por grades e um vidro blindado – vi um jovem judeu que nos observava. Como duas religiões compartilham um templo, a sacralidade do corpo de Abraão e Sara e Isaac e Rebeca e Jacó e Leia, não podem compartilhar um pais? Quando vai soprar o vento que levará estas grades, estes ódios, estas falsas diferenças para longe?

Tumba de Abraao

Túmulo dos Patriarcas


Termino a pequena postagem de hoje com a promessa de tratar na próxima postagem do processo de reconhecimento do estado palestino na Assembléia das Nações Unidas de Setembro. Também com o peito apertado pelo extremismo da situação e da sombra que as consequências desta reunião, sejam elas quais forem, já lançam sobre a vida palestina. O artigo que sugeri no começo desta postagem é representante disto. A pequena descrição que tentei esboçar da convivência entre palestinos e Settlers marca minha posição sobre a justeza da iniciativa.


PS: Durante a viagem de ida me lembrei que já tinha lido algo em referencia a Hebron nos jornais. Na viagem de volta me lembrei que se tratava deste vídeo, que posto abaixo, de soldados israelenses dançando ao som de música americana. Minha idéia na época era de que as duas coisas caminhavam juntas, a dominação ideológica da indústria cultural e a ocupação. Hoje, em um percurso subjetivo de mais para se argumentar, me lembro dos versos de Paul Celan: "ihr andern spielt weiter zum Tanz auf". Mudam os atores, quem toca, quem ouve, quem dança. A fuga, no entanto, continua a mesma.