Amanhã, dia 15 de Março, completará nove anos da morte de Rachel Corrie. Ela morreu em Gaza, atropelada brutalmente por um trator das forças armadas israelenses (IDF), tentando proteger a casa de um médico palestino marcada para demolição. Ela não é a única voluntária internacional a ser morta devido ao conflito entre israelenses e palestinos, outros nomes são Vittorio Arrigoni (2011), Juliano Khamis (2011), Takawa Hemoura (2001). Os palestinos chamam aqueles mortos por soldados israelenses de mártires. Reproduzo abaixo, depois do vídeo em memória de Rachel, uma foto que tirei em Deheisha de um monumento aos voluntários internacionais assassinados.
quinta-feira, 15 de março de 2012
terça-feira, 24 de janeiro de 2012
As crianças palestinas: sozinhas e fragilizadas na prisão Al Jalame de Israel
* Tradução da reportagem especial de Harriet Sherwood, em inglês no original entitulado The Palestinian children – alone and bewildered – in Israel's Al Jalame jail, publicado no Domingo, 22 de Janeiro de 2012 na edição online do The Guardian. Todos os direitos reservados à autora e ao jornal.
As
crianças palestinas: sozinhas e fragilizadas na prisão Al Jalame de
Israel
Matéria
especial: O sistema judiciário militar de Israel é acusado de
maltratar crianças palestinas presas por jogar pedras
O quarto é
só um pouco mais largo do que o colchão fino e sujo que cobre o
chão. Atrás de uma parede de concreto baixa está uma privada de se
agaxar, da qual o fedor não consegue se dissipar, já que não há
janelas na sala. As paredes ásperas de concreto desencorajam
apoiar-se, a iluminação constante inibe o sono. A entrega de comida
através de uma abertura embaixo da porta é a única maneira de
marcar o tempo, de dividir dia e noite.
Esta é a
Cela 36, localizada no interior da prisão de Al Jalame, no norte de
Israel. É uma das várias celas onde crianças palestinas são
trancadas em confinamento solitário por dias ou mesmo semanas. Um
jovem de 16 anos afirma que foi mantido na Cela 36 por 65 dias.
A única
fuga é a sala de interrogatório, onde as crianças são atadas por
pés e mãos à cadeira, enquanto são interrogadas, às vezes por
horas.
A maior
parte deles é acusada de jogar pedras em soldados ou colonos;
alguns, de lançar coquetéis molotov; outros poucos, de infrações
mais graves como conexões com organizações militantes ou uso de
armas. Eles também são pressionados a ceder informações sobre as
atividades e simpatias de seus colegas de classe, parentes e
vizinhos.
No começo,
a maior parte deles nega as acusações. A maioria diz que são
ameaçados, alguns relatam o uso de violência física. Abuso verbal
é comum: “Você é um cão, sua mãe é uma puta”. Muitos ficam
exaustos pela privação de sono. Dia após dia eles são
acorrentados à cadeira e depois mandados de volta para a solitária.
No fim, muitos assinam confissões que, posteriormente, eles afirmam
terem sido obtidas à força.
Estas
afirmações e descrições vêm de depoimentos dados por menores à
uma organização de direitos humanos e de entrevistas conduzidas
pelo The Guardian. Outras celas nas prisões de Al Jalame e Petah
Tivka também são usadas como solitária, mas a cela 36 é a mais
frequentemente citada nestes testemunhos.
Entre
500 e 700 crianças palestinas são presas por soldados israelenses
todo ano, a maior parte delas acusada de jogar pedras. Desde 2008, a
ONG Defence
for Children International
(DCI)
coletou testemunhos prestados por 426 menores detidos no sistema
jurídico militar de Israel.
Suas
afirmações mostram um padrão de prisões feitas durante a noite,
com mãos atadas por amarras de plásticos, vendas, abuso físico/
verbal e ameaças. Aproximadamente 9% de todos aqueles que deram
depoimento dizem que foram mantidos em confinamento solitário,
embora tenha havido um aumento de 22% os últimos seis meses.
Poucos
pais e mães são avisados da localização de seus filhos. Menores
raramente são interrogados na presença dos pais e raramente veem um
advogado antes ou durante o primeiro interrogatório. Muitos são
detidos dentro de Israel, o que torna as visitas familiares muito
difícil.
Organizações
de direitos humanos dizem que estes padrões de tratamento - que são
corroborados por um estudo separado, No
Minor Matter,
conduzido pelo grupo israelense B’Tselem - violam a convenção
internacional sobre os direitos das crianças,
que Israel ratificou, e a quarta convenção de Genebra.
Muitas
crianças mantém que são inocentes dos crimes de que são acusadas,
apesar das confissões de culpa, diz Gerard Horton do DCI. Mas, ele
acrescenta, culpa ou inocência não são questões relevantes em
relação ao tratamento que sofrem.
“Nós
não estamos dizendo que infrações não são cometidas. Estamos
dizendo que crianças têm direitos legais. Independentemente do que
elas são acusadas, elas não devem ser presas no meio da noite em
operações aterrorizantes, elas não devem ser amarradas e vendadas
dolorosamente às vezes por horas a fio, elas devem ser informadas
sobre seu direito ao silêncio e elas devem ter o direito de ter um
dos pais presente durante o interrogatório”.
Mohammad
Shabrawi da cidade de Tulkarm, na Cisjordânia, foi preso, com 16
anos, no último Janeiro, aproximadamente às 2h30 da manhã. “Quatro
soldados entraram no meu quarto e disseram: você tem que vir
conosco. Eles não disseram por que, não disseram nada, nem para
mim, nem para os meus pais”, ele disse ao The Guardian.
Algemado
com uma amarra de plástico e vendado, ele acha que primeiro foi
levado a um assentamento, onde ele teve de se ajoelhar - ainda
algemado e vendado - por uma hora em uma estada de asfalto durante o
frio gelado da noite. Uma segunda jornada terminou aproximadamente às
8 da manhã no centro de detenção de Al Jalame, também conhecido
como prisão Kishon, entre os campos próximos à estrada que vai de
Nazaré à Haifa.
Depois de
uma checagem médica de rotina, Shabrawi foi levado à Cela 36. Lá,
ele passou 17 dias na solitária, além dos interrogatórios, e em
uma cela parecida, a número 37, ele disse. “Eu estava sozinho,
assustado todo o tempo e precisava de alguém para conversar. Eu
estava em choque por estar sozinho. Eu estava desesperado para
encontrar qualquer um, falar com qualquer um... Eu estava tão
chateado que quando eu estava fora [da cela] e via a polícia, eles
estavam falando em hebraico e eu não falo hebraico, mas mesmo assim
eu estava balançando a cabeça como se eu entendesse. Eu estava
desesperado para falar”.
Durante o
interrogatório, ele estava amarrado. “Eles me xingaram e ameaçaram
prender minha família se eu não confessasse”, ele disse. Ele viu
um advogado pela primeira vez 20 dias depois de sua prisão, ele
disse, e foi condenado depois de 25 dias. “Eles me acusaram de
muitas coisas”, ele disse, acrescentando que nenhuma delas era
verdadeira.
Em algum
momento, Shabrawi confessou ter sido membro de uma organização
proibida e foi sentenciado à 45 dias. Desde sua libertação, ele
diz, ele estava “com medo do exército, com medo de ser preso”.
Ele disse ter se tornado mais recluso.
Ezz
ad-Deen Ali Qadi de Ramallah, que tinha 17 anos quando foi preso em
Janeiro passado, descreveu um tratamento similar durante sua prisão
e detenção. Ele diz que foi mantido na solitária em Al Jalame por
17 dias nas Celas 36, 37 e 38.
“Eu
começava a repetir as perguntas dos interrogadores para mim mesmo,
me perguntando se era verdade a acusação deles”, ele disse ao The
Guardian. “Você sente a pressão da cela. Aí você pensa sobre
sua família e você sente que vai perder seu futuro. Você fica
sobre uma pressão gigantesca”.
Seu
tratamento durante o interrogatório dependia do humor dos seus
interrogadores, ele diz. “Se ele está de bom humor, às vezes ele
permite que você sente na cadeira sem as algemas. Ou ele pode te
forçar a sentar em uma cadeira pequena com um aro de ferro atrás.
Daí ele amarra suas mãos no aro e suas pernas nas pernas da
cadeiras. Às vezes você fica desse jeito por quatro horas. É
doloroso.
“Às
vezes eles tiram sarro de você. Eles perguntam se você quer água e
se você diz que sim eles trazem, mas daí o interrogador é que
bebe”.
Ali Qadi
não viu seus pais durante os 51 dias em que esteve preso antes do
julgamento, ele afirma, e só teve permissão de ver um advogado
depois de 10 dias. Ele foi acusado de jogar pedras e de planejar
ações militares, depois de condenado, ele foi sentenciado a seis
meses de prisão. O The Guardian tem depoimentos de mais cinco jovens
que disseram terem sido presos na solitária em Al Jalame e em Petah
Tivka. Todos confessaram depois de interrogatório.
“A
solitária destrói o ânimo de uma criança”, disse Horton.
“Crianças dizem que depois de uma semana com esse tratamento, ele
confessam simplesmente qualquer coisa para poderem sair da cela”.
A Agência
de Segurança Israelense (ISA) - também conhecida como Shin Bet -
contou ao The Guardian: “Ninguém que é interrogado, incluindo
menores, é mantido em uma cela como medida punitiva ou com o
objetivo de obter uma confissão”.
O serviço
penitenciário israelense não respondeu à questão específica
sobre a solitária, dizendo apenas que “a encarceração de
prisioneiros... é submetida a examinação legal”.
Jovens
detentos também alegam pesados métodos de interrogação. O The
Guardian entrevistou o pai de um menor que cumpre uma pena de 23
meses por jogar pedras em veículos. Ali Odwa, de Azzun, disse que
seu filho Yashir, que tinha 14 anos quando foi preso, levou choques
elétricos de taser enquanto estava sendo interrogado.
“Eu
visitei meu filho na prisão. Eu vi marcas de choques elétricos nos
seus braços, eles estavam visíveis através do vidro. Eu perguntei
a ele se eram de choques elétricos, ele apenas balançou a cabeça.
Ele estava com medo de que alguém estivesse ouvindo”, Odwan disse.
O DCI tem
depoimentos de três menores acusados de jogar pedras que afirmam
terem sido eletrocutados sob interrogatório em 2010.
Outro
jovem de Azzun, Sameer Saher, tinha 13 anos quando foi preso às 2 da
madrugada. “Um soldado me segurou de cabeça para baixo, me levou
para uma janela e disse: ‘Eu quero jogar você desta janela’.
Eles me bateram nas pernas, estômago, rosto”, ele disse.
Seus
interrogadores o acusaram de atirar pedras e exigiram o nome de seus
amigos que também jogaram pedras. Ele foi liberado sem acusações
aproximadamente 17 horas depois de sua prisão. Agora, ele diz, ele
tem dificuldade de dormir por medo “de que eles vão vir de noite e
me prender”.
Em
resposta às questões sobre maus tratos, incluindo choques
elétricos, a ISA disse: “As afirmações de que jovens palestinos
foram sujeitos à técnicas de interrogação que incluem
espancamento, longos períodos algemados, ameaças, truques, abuso
verbal, humilhação, isolamento e impedimento de sono não tem
absolutamente nenhuma base... Investigadores agem de acordo com a lei
e com determinações inequívocas que proíbem tais ações”.
O The
Guardian também viu raras gravações audiovisuais do interrogatório
de dois meninos, de 14 e 15 anos, do vilarejo de Nabi Saleh, local
onde ocorrem semanalmente protestos contra os colonos dos arredores.
Muitos estão visivelmente exaustos depois de serem presos no meio da
noite. Seus interrogatórios, que começaram perto das 9:30 da manhã,
duraram quatro e cinco horas.
Em nenhum
dos casos estavam presentes advogados durante o interrogatório.
A lei
militar israelense foi aplicada na Cisjordânia desde que Israel
ocupou os territórios, mais de 44 anos atrás. Desde então, mais de
700.000 homens, mulheres e crianças palestinas foram presas sob
ordens militares.
De acordo
com a lei militar 1651, a idade de responsabilidade criminal é 12
anos, e crianças mais novas do que 14 anos enfrentam um máximo de
seis meses de prisão.
No
entanto, crianças de 14 e 15 anos poderiam, em teoria, ser
sentenciadas a até 20 anos por jogar objetos em um veículo em
movimento com a intenção de ferir. Na prática, a maior parte das
sentenças vão de duas semanas a 10 meses, de acordo com o DCI.
Em
Setembro de 2009, uma corte militar especial para jovens foi criada.
Ela se reúne em Ofer, uma prisão militar fora de Jerusalém, duas
vezes por semana. Menores são trazidos à corte com as pernas
amarradas, algemas e vestindo uniformes marrons de prisioneiro. Os
procedimentos são em hebraico com a tradução intermitente de
soldados que falam árabe.
O serviço
penitenciário israelense disse ao The Guardian que o uso de amarras
em locais públicos era permitido nos casos em que “há uma
preocupação razoável de que o prisioneiro possa escapar, causar
dano à propriedade ou a pessoas, ou causará dano à evidência ou
tentará destruir evidências”.
O The
Guardian testemunhou um caso neste mês no qual dois garotos, um de
15 e outro de 17 anos, admitiram terem entrado ilegalmente em Israel,
terem lançado coquetéis molotov e pedras, terem iniciado um
incêndio que causou dano extensivo e terem vandalizado propriedade.
A acusação pediu por uma sentença que refletisse as “razões
nacionalistas” e que agisse como um bloqueador.
O garoto
mais velho foi sentenciado a 33 meses de prisão, o mais novo a 26
meses. Ambos foram sentenciados a um adicional de 24 meses e foram
multados em 10.000 shekels (R$4.600). Se o pagamento não for
efetuado, haverá um adicional de 10 meses de prisão.
Muitas
delegações parlamentares britânicas testemunharam audições
infantis em Ofer nos últimos anos. Alf Dubs relatou à Casa dos
Lordes, em Maio passado, dizendo: “Nós vimos um menino de 14 anos
e um de 15 anos, um deles estava chorando, os dois pareciam
absolutamente fragilizados... Eu não acredito que este processo
humilhante represente justiça. Eu acredito que a maneira com que
estas jovens pessoas são tratadas é já um obstáculo para que
Israel alcance um relacionamento pacífico com o povo palestino”.
Lisa
Nandy, membro do parlamento britânico por Wigan, testemunhou o
julgamento de um jovem atado de 14 anos em Ofer no mês passado e
achou aflitiva a experiência. “Em cinco minutos ele foi julgado
culpado de jogar pedras e foi sentenciado a nove meses. Foi chocante
ver uma criança passar por este processo. É difícil ver como uma
solução [política] pode ser alcançada quando jovens estão sendo
tratadas desta maneira. Eles terminam com pouquíssima esperança no
seu futuro e com muito ódio por seu tratamento”.
Horton
disse que uma confissão de culpa era “a maneira mais rápida de
sair do sistema”. Se a criança disser que sua confissão foi
forçada, “isso lhes permite uma defesa legal, mas a fiança é
negada, eles irão permanecer em detenção mais tempo do que se eles
tivessem simplesmente confessado”.
Uma
opinião de especialista,
escrita por Graciela Carmon, psiquiatra infantil e membro do
Physicians
for Human Rights,
em maio de 2011, disse que crianças são particularmente vulneráveis
a fornecer falsas confissões sob coerção.
“Embora
alguns dos detentos entendam que fornecer uma confissão, apesar de
sua inocência, terá repercussões negativas no futuro, eles
confessam mesmo assim, já que a angústia física e/ou psicológica
imediata que eles sentem se mostra mais forte do que as implicações
futuras, sejam elas quais forem”.
Quase
todos os casos documentados pelo DCI terminaram em confissão de
culpa e aproximadamente três quartos dos menores culpados foram
transferidos para prisões dentro de Israel. Isto infringe o artigo
76 da quarta convenção de Genebra, que determina que crianças e
adultos dos territórios ocupados sejam detidos dentro do território.
As Forças
Armadas de Israel (IDF), responsáveis pelas prisões na Cisjordânia
e pelo sistema penal militar, disseram mês passado que o sistema
penal militar era “embasado em um cometimento com a asseguração
dos direitos do acusado, imparcialidade judicial e uma ênfase na
prática das normas legais internacionais em situações
incrivelmente complexas e perigosas”.
A ISA
disse que seus empregados agiram de acordo com a lei e que os presos
tiveram todos os direitos que lhes são cabíveis, incluindo o
direito a aconselhamento legal e visitas da Cruz Vermelha. “A ISA
nega categoricamente todas as afirmações em relação ao
interrogatório de menores. Na verdade, a verdade é o completo
oposto - as especificações da ISA garantem proteções especiais a
menores, necessárias devido a sua idade”.
Mark
Regev, porta-voz do primeiro ministro israelense, Binyamin
Netanyahu, disse ao Guardian: “Se detentos acreditam que estão
sendo maltratados, especialmente em caso de menores... é muito
importante que estas pessoas, ou pessoas os representando, venham e
tragam estas questões a público. O teste de uma democracia é a
maneira como você trata as pessoas encarceradas, pessoas na cadeia
e, especialmente, crianças nesta situação”.
Jogar
pedras, ele acrescenta, era uma atividade perigosa que resultou nas
morte de um pai e de um filho israelenses no ano passado.
“Jogar
pedras, lançar coquetéis molotov e outras formas de violência são
inaceitáveis e as autoridades de segurança têm de terminar com
estas ações quando elas acontecem”.
Grupos
defensores dos direitos humanos estão preocupados com o impacto a
longo prazo da detenção de palestinos menores de idade. Algumas
crianças inicialmente mostram um pouco de orgulho, acreditado que
aquilo foi um rito de passagem, disse Horton. “Mas quando você
senta com eles por uma hora ou mais, sob este verniz de orgulho está
uma criança consideravelmente traumatizada”. Muitos deles, ele
diz, nunca mais querem ver um soldado ou chegar perto de um posto de
verificação. Ele acha que o sistema funciona como um bloqueador?
“Sim, acho que ele funciona”.
De acordo
com Nader Abu Amsha, o diretor do YMCA em Beit Sahour, próximo à
Belém, que mantém um programa de reabilitação para jovens, “as
famílias pensam que quando a criança é liberta, este é o fim do
problema. Nós dizemos a eles que este é o começo do problema”.
Após a
detenção, muitas crianças exibem sintomas de trauma: pesadelos,
desconfiança dos outros, medo do futuro, sentimentos de desesperança
e desvalorização, comportamento obsessivo-compulsivo, incontinência
urinária, agressão, reclusão e falta de motivação.
As
autoridades israelenses deveriam considerar os efeitos a longo prazo,
diz Abu Amsha. “Eles não dão atenção à maneira com que isto
pode fazer continuar o ciclo de violência, com que isso pode
aumentar o ódio. Estas crianças saem do processo com muita raiva.
Alguns deles sentem a necessidade de vingança.
“Você
vê crianças que estão totalmente destruídas. É doloroso ver a
dor destas crianças, ver o quanto elas estão exauridas pelo sistema
israelense”.
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Em seguida a esta reportagem, foi postado no portal do The Guardian, um vídeo cedido pela ONG B'Tselem, com a seguinte entrevista, dada por dois jovens palestinos.
Em seguida a esta reportagem, foi postado no portal do The Guardian, um vídeo cedido pela ONG B'Tselem, com a seguinte entrevista, dada por dois jovens palestinos.
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Despedida
A despedida seria dolorosa o bastante sem o agravante da
preocupação. Um mês de intensa convivência diária, choques e trocas culturais,
boa intenção de ambas as partes. É dolorosamente que escrevo esta postagem de
despedida do Campo e principalmente das crianças. Se por um lado é bonito saber
que a vida na Palestina continua (sempre!), por outro há a tristeza de não
estar lá para ver como estas crianças vão crescer. Se terão um Estado e os
direitos dele advindos, se será um bom Estado, se a paz com os vizinhos, todos,
será finalmente alcançada. Os jornais de todo o mundo que fazem ecoar o termo
“Statehood” (o tornar-se um estado da Palestina) entre as mais variadas
análises políticas e diplomáticas, deixam escapar o sussurro – cada vez mais
alto e real – que vem das ruas da Cisjordânia (e provavelmente de Gaza), dentre
os velhos de manto e lenço, à Arafat,
das bandeirinhas palestinas que agora cobrem as ruas – numa versão local das
fitinhas verde e amarelas da Copa do Mundo no Brasil –, da boca mesma das
crianças que, em sua juventude, misturam valores, direitos e heroísmo com
tragédia: terceira Intifada. Será pacífica e desafiadora como a
primeira? Violenta e trágica como a segunda? Terá consequência na vida de
Deheisha ou das crianças do Karama?
| Monumento em Deheisha dedicado aos mártires internacionais da causa palestina. |
A partir do próximo dia 20 de Setembro se inicia a 66ª Assembleia Geral das Nações Unidas. À semelhança de Israel em 1949 (dois anos
após sua fundação, portanto), a Autoridade Palestina vem através de seu atual
representante, Mahmoud Abbas, pedir – exigir – dos governos do
mundo o que é prometido à décadas, mas nunca dito, o que é apoiado por grandes
e pequenos países, mas nunca efetivado: que a Palestina torne-se finalmente um
estado independente, com as barreiras anteriores a 1967. O resumo do
percurso mais provável, embora incerto, é o seguinte: no dia 20, no discurso de
abertura da Assembleia, é possível que a presidenta Dilma, representando o
Brasil e sua posição diplomática, se refira ao processo palestino de maneira
positiva (será, na minha desinformada opinião, quase como uma mea culpa internacional,
uma retratação do apoio inconsequente do Brasil, como presidente da Assembleia, em 1947, em que se reconheceu a criação do estado de Israel). Em
seguida, se espera que o presidente Abbas discurse no dia 23 quando será
formalizado o pedido palestino de tornar-se membro integrante da Organização
das Nações Unidas. Este pedido para ser atendido tem de passar primeiro pelo
Conselho de Segurança, no qual, se mantiverem-se as posições, deverá ser vetado
pelos Estados Unidos. Como a posição americana sobre Israel é cada vez mais
isolada no cenário internacional, no entanto, e especialmente sensível no Oriente Médio, devido às duas guerras, e à Primavera Árabe,
não seria uma reviravolta inimaginável que o veto seja negociado. O mais
provável, no entanto, é que ele ocorra e que os palestinos tornem-se então para
a Assembleia Geral, onde jogam em casa com apoio da ampla maioria –
excetuando-se Israel, evidentemente, meia duzia de ilhas-estado, como a
Micronésia, fantoches americanos, e possivelmente dois ou três países alinhados
como Canadá e Austrália. O que será pedido, e muito provavelmente aceito nesta
Assembleia, que deverá marcar o ponto alto de vexame internacional recente para
alguns países – a saber, os que votarem contra ou mesmo se absterem como é
possivelmente o caso do Reino Unido -, é o reconhecimento da Palestina como
estado não-membro da ONU. Passariam então de “membro não-estado”, como é mais
ou menos sua situação atual, para “estado não-membro”, do qual o Vaticano é
exemplo. A vitória, ainda sim, seria Palestina, primeiro pela demonstração
maciça de apoio internacional à causa. Segundo porque tornando-se Estado,
abrem-se para a Palestina diversas estâncias da própria ONU – como a Corte Penal Internacional – até agora fechadas
Este percurso diplomático, em sua claridade e abertura
internacional, contrasta com a obscuridade das preparações mais práticas e,
infelizmente, mais efetiva nas vidas, que tomam curso na Palestina e em Israel.
Na visita à Ramalah, que comecei a descrever em postagem anterior,
relatei as principais informações que recebemos de um funcionário da Autoridade
Palestina a respeito da economia palestina dependente, devido à ocupação, da
israelense e do boicote como ferramenta de emancipação. Ao fim da seção
perguntei sobre as consequências do reconhecimento do Estado na economia. Me
surpreendi com a resposta do funcionário do “governo”: não se sabia. A maneira
com que formulou a resposta é exemplar do sentimento que toma forma aos poucos
dos dois lados do muro: independentemente do que aconteça na reunião da
ONU, grandes coisas – e até agora imprevisíveis – vão acontecer.
O sentimento generalizado de revolta que precede a
Intifada está nas ruas há tempos. (Sua fonte é o cotidiano que relembra
constante e sadicamente, grilhão na ferida, o bloqueio da vida, a ofensa
rotineira da dignidade nos Check-Points e no controle da água e da comida, os
cemitérios que engolem vidas jovens e a própria morte que se torna impossível,
em sua desritualização). Houve quem a chamasse no primeiro semestre
deste ano pela internet. Protestos pacíficos têm acontecido nos últimos
meses – como o exemplar Olive Revolution – e a capacidade de mobilização
mostra-se cada vez maior. Com ela, como é costumeiro no conflito, cresce também
a resposta seca, brutal e violenta de Israel. Como vazado em um dos informesdo Wikileaks, o exército de Israel afirma não estar preparado para lidar
com Gandhis. A resposta às demonstrações pacíficas é a milícia típica do
fascismo – me desculpo com os ouvidos mais sensíveis, mas não há outro termo. É
conhecido da mídia internacional que Israel, nos últimos meses, tem treinado
militarmente Settlers e lhes fornecido armas, balas de borracha e bombas de gás
lacrimogênio. Há quem defenda balas de verdade, como citei na postagem
anterior. Quem vive aqui sabe que não há necessidade, os Settlers têm há tempos
armas e munição letal. A milícia, fundada, no duplo sentido, pelo estado
israelense, chegou ao ponto de se internacionalizar. O grupo terrorista
francês JDL, como os denomina Israel e os EUA, chegará a Israel com homens
e mulheres de formação militar para fazer a proteção dos Settlements durante as
esperadas manifestações palestinas. De acordo com a instrução da IDF – forças
armadas israelenses -, serão pintadas linhas no chão que dão aos poucos
direitos aos Settlers: cruzar a primeira linha dá direito à balas de borracha,
a segunda, bombas de gás lacrimogênio. Quantos cruzarão a terceira linha? O
leitor notará que nem entro aqui no mérito da violência indiscriminada – como
os corpos das crianças de Gaza, durante a operação Cast Lead, não nos deixam
esquecer – do exército. Deste se espera uma versão ainda mais brutalizada de
seu comportamento habitual. Que a repressão chegue ao ponto de milícias civis é
sinal por si só do monte de pólvora que aguarda a fagulha da Assembleia da ONU.
Ainda em Ramallah, percebemos uma postura semelhante de
todas as autoridades com que conversamos, gente ligada ao Hamas, gente do
governo e do Fatah, gente da juventude mobilizada e das comissões de negociação
internacional. Já que todas as vias de negociação, como reconhecem os próprios
americanos, foram deliberadamente fechadas por Israel – com sua negação em
congelar a construção de Settlements em território palestino e sua exigência
absurda de ser reconhecido por cidadãos muçulmanos e cristãos autóctones como
estado judeu -, o que coube aos palestinos, menos como ação de audácia do que
como último recurso, foi recorrer ao foro internacional. É também para o
governo uma maneira de exigir do mundo os compromissos afirmados décadas e
décadas a fio, em troca da realização de tratados e exigências. Pois os
palestinos se pacificaram, construíram instituições, tornaram-se interlocutores
respeitados internacionalmente e agora exigem o que lhes foi prometido.
Evidentemente que o pedido é embaraçador. Apesar da nuvem de sangue que já
ensombrece às ruas palestinas, a ocupação, como disse há pouco um
alto-funcionário israelense, não vai acabar por causa de um pedaço de papel. A
situação internacional e diplomática, no entanto, vai. Os atos de agressão e violência, do
ponto de vista jurídico, não serão mais de um estado contra uma “minoria”
oprimida, mas um ataque bélico, de um país – juridicamente fictício, que seja –
contra outro país. Cada violação será uma violação internacional. Cada crime um
crime de guerra. Os cartões de refugiados, num futuro próximo, quem sabe,
transformar-se-ão em passaportes e registros civis. A habilidade mesma de negociar
a paz e a desocupação com Israel se dará não mais entre o ocupante e o
refugiado, mas entre dois estados.
Tumulo de Yasser Arafat que devera, num futuro talvez proximo, ser transportado para Jerusalem, como desejo postumo.
O pedido na ONU não é
unanimidade entre os palestinos. Entre os cidadãos comuns o que se nota
é um compreensível ceticismo em relação a ações internacionais e suas
consequências. É o corpo do Tratado de Oslo, como esperança abortada,
que ainda cheira. Entre alguns acadêmicos, palestinos refugiados e membros do
Hamas, a Autoridade Palestina coloca-se em uma posição delicada com o pedido.
Pois sendo reconhecida como representante do estado palestino, deixaria de
representar os palestinos no exterior. Sua legitimidade também balançaria, pois
tendo sido eleita como representante internacional, se tornaria governo de um
estado. O argumento que me parece principal, no entanto, é o de que o
reconhecimento é a oficialização da solução dos dois estados e, por
consequência, o bloqueio da solução de um estado. Me lembro, alguns meses antes
de vir, de ter lido um artigo de Slavoj Zizek em que se defendia a solução de
um estado. (Entenda-se com isso a convivência pacífica e democrática entre
israelenses e palestinos em um único estado, com o fim do Apartheid e de
direitos desiguais entre cidadãos). Ora, lembro que pensei que a solução
parecia bela e justa, mas impossível de realizar-se considerando a linha
ideológica predominante na política israelense. Hoje, depois de ter vindo para
cá, e de ter experienciado a vida em um Campo de Refugiados que tiveram a terra
roubada e a situação de vida de três gerações danificadas, tenho o sentimento
de que a solução de dois estados não é apenas paliativa, mas também injusta. O
direito de retorno é quase a essência do Campo e mesmo da identidade de jovens
e velhos que moram aqui. A solução de dois estados me parece eliminar na
prática – considerando a continuidade das linhas principais ideológicas em
Israel – este direito.
| Minarete do Campo de Refugiados de Aida |
Mesmo tomando isto em consideração, os argumentos a
favor da ida à ONU me parecem, no entanto, mais fortes. Primeiro porque é
necessário o mais rápido possível acabar a situação de tragédia diária que é a
vida palestina. Um estado palestino, com menos de um quinto de suas terras
originais, com recursos roubados que não serão restituídos, com o sangue de
mártires e mártires em sua história, é ainda sim uma solução a esta tragédia. É
uma possibilidade de recomeço, melhor do que a vida sob o conflito,
indefinidamente, vida quem sabe da geração filha destas crianças que eu conheci
aqui. Segundo porque, como bem disseram as autoridades que visitamos, não há outra
alternativa racional de ação – e o tempo, com a construção galopante dos
Settlements, é sempre aliado de Israel. Mas há sim uma outra alternativa,
embora não racional: é aquela da violência desesperada. É a negação a esta
alternativa maldita – que esta geração de autoridades baniu de suas ações – que
darão os países apoiadores da iniciativa palestina na próxima Assembleia da
ONU. O voto negativo, ou de abstenção, será a afirmação indubitável de que se
está com Israel acima de tudo e a infame insinuação e instigação muda daquela
violência então abandonada. Como diz a sábia frase de Nelson Mandela, que
aprendia lendo no Muro da Vergonha: só homens livres podem negociar. É o
direito de negociar que pedem os palestinos. É a este direito que qualquer país
ou cidadão auto-denominado civilizado tem a obrigação de atender – sob a pena
de guardar em si a culpa do desespero futuro.
Esta provavelmente não será a última postagem do blog,
mesmo que eu deixe bela terra em alguns dias. O espaço agregou interesse e
discussão e não há, portanto, motivo para desmanchá-lo. Tentarei trazer
informações dos que ficaram em sua terra e as compartilharei aqui na medida do
possível. Volto de peito e olhos cheios de boas lembranças e de preocupação, e
com estes óculos que me lançam às vistas, ao invés de nomes de cidades e vilas
do papel cinza do jornal, rostos e nomes de crianças, ruas e comidas. O
interesse na Palestina, antes político e intelectual, metamorfoseou-se
belamente na borboleta do cuidado com os que nos são queridos. Ontem tivemos
uma discussão em grupo sobre o que desejamos do futuro. A maior parte das
crianças quer casar, ter filhos (um deles disse dez!) e morar na Palestina.
Acham a melhor coisa daqui o falafel, as pessoas (e algum malandro disse:... os
beijinhos!). Acham o lixo nas ruas e controle de água a pior coisa e se
pudessem mudar alguma coisa construiriam casas em Gaza e distribuiriam
brinquedos para todas as crianças da Palestina. Acham, sem saber como, que a
ocupação um dia vai acabar e que a Palestina vai ser então um lugar feliz.
(Mais feliz ainda, pensei eu). É no interesse então destes meus amigos queridos
que convido o leitor a participar de alguma demostração, a mandar um e-mail ou
dar um telefonema, a acompanhar as notícias, a exigir de si mesmo e do mundo
uma situação de vida melhor para estes que eu esforcei-me por retratar não com
números ou adjetivos, mas com formas e sentimentos e histórias. São pessoas e,
no caso do leitor brasileiro, por acaso
da história e do mundo, pessoas bastante parecidas com a gente. Pessoas que
bebem no seio da vida o leite da resistência – pois não há outra alternativa –
e que resistindo vivem com a maior beleza possível. A Palestina resiste!
PS: Futuramente o blog poderá ficar bloqueado durante um
dia. É quando viajarei de volta e terei
de esconder minha estadia na Palestina para passar sem problemas pelo
aeroporto.
domingo, 11 de setembro de 2011
Hebron
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| Settlements |
Antes começar a relatar a curta viagem de apenas algumas horas que fizemos hoje à Hebron, convido o leitor a ler esta reportagem do jornal israelense Haaretz. A ideia do congressista é a de aplicar a lei “Shai Dromi” - uma espécie de lei do velho oeste, já aprovada pelo governo israelense, que permite a qualquer cidadão atirar em pessoas que “invadam” sua propriedade - à manifestações pacificas e demonstrações nas ruas dos Settlements que ativistas palestinos estão planejando após a reunião das Nações Unidas que deverá reconhecer a Palestina como um estado.
Andar pelas ruas de Hebron é uma experiência semelhante a de observar nas beiras das estradas e cidades árabes o surgimento imponente, bárbaro na arquitetura, dos Settlements. Fechados como condomínios e protegidos por tropas e mais de tropas de soldados e torres de vigilância, sua aparência é antes intimidadora do que defensiva. Gigantescos e idênticos eles se espalham progressivamente pelos picos das colinas ocupadas da Cisjordânia. Sua altura e aparência lembra plantações de eucalipto que ocupam o solo de antigas matas tropicais. Do posto alto observam a vida nas estradas e cidades sem, no entanto, participar delas. As únicas curvas na arquitetura são do Muro da Vergonha que para protegê-las aprisiona a vida árabe em guetos. Pois a impressão de, apesar de ocupar um espaço maior, ser ainda sim vigiado e controlado por uma minoria, é a mesma que se tem caminhando pela rua principal do mercado velho de Hebron, da qual os segundo andares foram todos desalojados - legal ou ilegalmente, através de violência, incêndios ou ameaças - por medidas de segurança. A maior parte permanece desocupada, alguns deles, de quarteirão em quarteirão, são ocupadas pelas onipresentes torres de segurança israelenses. Sobre o mercado grades de alumínio tornam a rua numa espécie de gaiola. Sua função, quase inacreditável, é proteger os pedestres e as lojas de lixo jogado propositalmente pelos Settlers que moram sobre o mercado. Esta triste reportagem ilustra bem a situação.
Alguns números sobre a cidade devem dar ao leitor uma impressão da vida sob ocupação. Hebron, a segunda cidade mais populosa da Cisjordânia, contava com uma população de 163.146 em 2007. Destes, apenas 500 são Settlers judeus. O número de soldados, no entanto, para proteger esta pequena parte da população é surpreendente: 4000, quase dez soldados para cada Settler, portanto. Esta presença maciça, que controla a vida de dezenas de milhares de palestinos – misturada com o ódio ideológico que é o ar que se respira na Cisjordânia – facilita a constante ocorrência de abusos. Quando estivemos lá conhecemos uma senhora que fazia parte de uma ONG que tinha como função de, além de serem observadores internacionais, acompanhar crianças palestinas à escola. Elas têm de ser acompanhadas porque podem ser alvo de Settlers ou dos soldados no meio do caminho.
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| H1 controlada pela polícia palestina, H2 pelos soldados israelenses |
Abaixo posto o trailer do filme "Bem-vindo a Hebron", ele explicita por si só mais do que qualquer lista de eventos que eu possa transcrever aqui. É necessário um adendo, no entanto. Os Settlers, me parece, não são representativos da maioria da população israelense. Este tipo de comportamento extremo é típico de uma certa camada minoritária, ultra-religiosa de israelenses que se voluntariam para habitar esta região por certas crenças religiosas e políticas. Minoritária, ela não é menos atuante e influente, no entanto. Prova disso é o número de soldados enviados pelo governo para a cidade. Parece um tipo de miniatura da própria política israelense: se por um lado é improvável que a maioria da população apoie a ocupação e o apartheid da maneira desumana com que eles ocorrem, por outro lado, seja por abstenção, auto-imposta ignorância ou abandono da política aos políticos, é essa minoria extrema que acaba por chegar ao governo e a tomar as terríveis decisões que tomam. A responsabilidade, evidentemente, é compartilhada entre todos. Os Settlers de Hebron são os representantes legítimos da atual política israelense e, através dela, da população que a legitima:
Caminhando pela rua principal do mercado, que se esvazia a medida que se aproxima da área israelense, chegamos ao seu fim que dá num check-point. Viramos a esquerda e passamos por um segundo check-point em que fui parado e perguntado "se eu era judeu". Visivelmente sem qualquer treinamento de identificação de passaportes, me deixou passar depois, sem pedir o documento da minha outra colega. Nosso guia árabe teve, evidentemente, de tirar o cinto e responder a algumas perguntas. Caminhamos mais cem passos até a entrada do Túmulo dos Patriarcas, onde passamos por mais um detector de metais e onde fomos interrogados novamente por soldados israelenses. Tentei me colocar na posição dos árabes que vêm algumas vezes ao dia à mesquita e que têm de passar por três check-points em menos de 200 metros para exercer o direito de rezar.
Algo triste de se observar é a divisão que foi feita do templo. Pois sendo local sagrado para as três grandes religiões, ele teve, no passado, cultos diversos ocorrendo no mesmo local. Desde o inicio do século passado, no entanto, como consequência da imigração sionista, os conflitos se iniciaram com massacres horríveis de judeus e muçulmanos. O peso da atmosfera me fez refletir sobre a possibilidade da religião – e principalmente de religiões tão pacificas e caritativas como o Islã e o Judaísmo – nestas circunstâncias de ódio evidente. Observando a tumba de Abraão – separado por grades e um vidro blindado – vi um jovem judeu que nos observava. Como duas religiões compartilham um templo, a sacralidade do corpo de Abraão e Sara e Isaac e Rebeca e Jacó e Leia, não podem compartilhar um pais? Quando vai soprar o vento que levará estas grades, estes ódios, estas falsas diferenças para longe?
| Tumba de Abraao |
| Túmulo dos Patriarcas |
Termino a pequena postagem de hoje com a promessa de tratar na próxima postagem do processo de reconhecimento do estado palestino na Assembléia das Nações Unidas de Setembro. Também com o peito apertado pelo extremismo da situação e da sombra que as consequências desta reunião, sejam elas quais forem, já lançam sobre a vida palestina. O artigo que sugeri no começo desta postagem é representante disto. A pequena descrição que tentei esboçar da convivência entre palestinos e Settlers marca minha posição sobre a justeza da iniciativa.
PS: Durante a viagem de ida me lembrei que já tinha lido algo em referencia a Hebron nos jornais. Na viagem de volta me lembrei que se tratava deste vídeo, que posto abaixo, de soldados israelenses dançando ao som de música americana. Minha idéia na época era de que as duas coisas caminhavam juntas, a dominação ideológica da indústria cultural e a ocupação. Hoje, em um percurso subjetivo de mais para se argumentar, me lembro dos versos de Paul Celan: "ihr andern spielt weiter zum Tanz auf". Mudam os atores, quem toca, quem ouve, quem dança. A fuga, no entanto, continua a mesma.
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